A ADOÇÃO DE BOAS PRÁTICAS DE MANEJO E OS BENEFÍCOS NA PRODUÇÃO DE BEZERROS LEITEIROS – PARTE 2



Lívia Carolina Magalhães Silva*, Antonio Velarde**,
Isabel Blanco Penedo**, Mateus José Rodrigues Paranhos da Costa*


*Grupo ETCO, Departamento de Zootecnia, Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias – UNESP, Jaboticabal, São Paulo, Brasil.
**IRTA, Bem-estar Animal, Monells, Espanha.

Diante do discutido na Parte 1 deste artigo, percebemos que a relação homem-animal é muito importante na produção leiteira, afetando tanto o bem-estar na fazenda (aqui definido pela combinação das condições de bem-estar dos animais e dos trabalhadores) quanto às respostas produtivas, com impacto econômico direto. Nesse cenário, a formação de laços entre humanos e bovinos leiteiros geralmente tem inicio nos primeiros dias de vida do bezerro, em particular nas fazendas que adotam a separação dos bezerros de suas mães poucas horas após o nascimento, pois todos os cuidados com os mesmos passam a ser de total responsabilidade dos tratadores.
O aumento na utilização de sistemas intensivos de produção é um dos elementos que mais tem levado a pressões do público sobre a questão do bem-estar dos animais de produção. Associado a isto, é também objeto de preocupação a utilização de tecnologias que apesar de reduzirem o esforço de trabalho, com adoção p.ex., de comedouros automáticos e ordenhadeiras mecânicas, promovem expressiva redução nas oportunidades de interações entre humanos e bovinos, em particular das interações positivas, que podem ser representadas por atividades cotidianas, como: reposição de alimento no cocho, ordenhas e aleitamento. Ou seja, uma vez reduzida a oportunidade de interagir com os animais, principalmente durante a infância, faríamos com que perdêssemos a oportunidade de conseguir boas respostas comportamentais no futuro. Por exemplo, foi reportado por Lensink et al. (2000) que bezerros que tiveram contatos positivos com humanos mostraram-se menos reativos ao manejo, após o desmame, sugerindo a ocorrência de maior facilidade de adaptação a uma nova situação.
Assim, é pertinente perguntar quais prejuízos podem ocorrer quando a interação entre humanos e animais passa ser marcantemente aversiva? No caso de bezerros leiteiros, é possível melhorar a interação humano-animal? Qual seria o melhor momento para se interagir com eles?
Deve-se reconhecer que a criação de bezerros, principalmente na fase inicial da vida até o desmame, exige a aplicação de boas práticas de manejo e muita atenção a detalhes. Sendo que no período de cria os bezerros são muito sensíveis às experiências vividas e, portanto, se caracteriza como um momento muito importante para promover associações positivas com eles.
Conforme descrito por vários estudos (Magalhães Silva e al., 2012; Da Silva et al., 2012; Magalhães Silva et al., 2013; Guimarães, et al., 2013) são vários os os efeitos da aplicação das boas práticas de manejo (melhoria nas instalações e no sistema de aleitamento) em fazendas comerciais e os resultados encontrados baseiam-se em redução de mortalidade dos bezerros durante a fase de aleitamento, associado a isto o novo manejo implicou também na redução significativa na ocorrência de doenças, em particular da diarréia e da mesma forma para a porcentagem de animais com quadro clínico de desidratação. Isto se pode perceber em um estudo com bezerros leiteiros (Magalhães Silva et al., 2007) onde comparamos a diferença do Manejo Convencional (MC = sem aplicação de boas práticas de manejo) com o Racional (MR= adoção de boas práticas de manejo com foco no bem-estar animal), quanto as ocorrências de diarréia e desidratação de bezerros. Logo, os resultados obtidos com este estudo trouxeram evidências de que a adoção das boas práticas de manejo, presentes no grupo de bezerros do MR, proporcionou melhores condições de bem-estar para os animais, dado que eles mostraram melhores condições de saúde.

 

Figura 1. Número de bezerros, até o desmame, com sintomas clínicos de diarréia e desidratação em função do manejo adotado, convencional (MC) e boas práticas de manejo (MR). (Fonte: Magalhães Silva et al., 2007).
Neste artigo iremos abordar como adotar as boas práticas de manejo nos sistemas de aleitamento dos bezerros, as quais são compostas por 3 fatores:
1) Aleitamento em baldes com bico, para o bezerro sugar o leite;
2) Desmama de leite gradual
3) Aumentar as ocorrecências de interação positiva humano-animal.

Manejo de aleitamento
Após separação da vaca, os bezerros são conduzidos para instalações próprias, onde permanceram durante todo o período de aleitamento. Assim, todos os cuidados com os animais, como alimentação, limpeza e tratamentos veterinários passam a ser de responsabilidade do trabalhador. Muitas vezes, ensinar os bezerros a tomarem leite em baldes convencionais não é uma tarefa fácil, e nestes primeiros dias de aprendizagem geralmente eles não conseguem tomar todo o leite oferecido, culminando em problemas como inapetência e fraqueza, o que pode deixar os bezerros mais suceptívies as doenças.
Diante disso, quando utilizamos o balde com bico os bezerros apresentam mais facilidade para aprender a tomar leite, resultando em quantidade de ingestão de leite ingerido satisfatória, pois o bezerro consegue mamar toda a quantidade de leite oferecida desde os primeiros dias de vida (Figura 1). Este balde tem como finalidade facilitar o aleitamento, pois assemalha-se ao úbere da vaca, permite que o bezerro expresse seu comportamento natural de sucção e que a mamada seja mais eficiente, uma vez que o risco de ocorrência de falsa via (quando o leite é aspirado, atingindo os pulmões) diminui muito, pelo fato da ingestão do leite ocorrem mais lentamente (Figura 2).

Figura 1. Balde com bicos para aleitamento de bezerros

Figura 2. Bezerro realizando o aleitmento em baldes com bicos, expressando seu comportamento natural.

Outro fator positivo decorrente do uso de baldes com bicos é a diminuição no comportamento de sugar a instalação e os outros bezerros. O comportamento de sugar é inato, ou seja, nasce com o bezerro, portanto ele irá expressá-lo, senão for por meio da mamada será por outros meios (instalações, outros bezerros, bebedouros de água). Ao utilizar o balde com bico para o aleitamento temos observado a diminuição deste comportamento de sucção, principalmente em outros bezerros, sendo favorável já que este pode ser um meio de contágio de doenças.
A altura para se posicionar o balde deve ser de 40 a 50 cm, entre o bico e o chão, a mesma do úbere da vaca. Deste modo, iremos permitir que o bezerro se posicione corretamente para mamar, assim como se estivesse com a mãe.
Ao utilizar os baldes com bicos, é importante que alguns cuidados sejam tomados como:
1) Desinfectar os bicos a cada troca de bezerro, isto irá prevenir quanto aos contágios de doenças. Utilize borrifadores contendo solução clorada e depois seque cada bico com papel toalha descartável.
2) Ordem de aleitamento: primeiramente aleite os bezerros mais novos e que não apresentem sinais de doenças, depois os animais mais velhos e saudáveis, finalize o aleitamento com os animais doentes.

O leite a ser fornecido deve ser de boa qualidade (leite natural ou substituto do leite) e a temperatura entre 37º e 38º C. Em casos de uso de leite de descarte (leite com mastite e com resíduo de antibiótico) é recomendado que este seja pausterizado antes de ser fornecido ao bezerro.
Quanto à quantidade de leite a ser fornecida vai depender de cada raça. Para as raças leiteiras, o ideal é que o bezerro tome a quantidade mínima de 10% do seu peso vivo. Por exemplo, um bezerro 60 kg deve ingerir a quantidade mínima de 6 litros de leite diário. Recomenda-se que esta quantidade seja repartida igualmente, duas vezes ao dia (3 litros de leite pela manhã e 3 litros de leite pela tarde) e deve ser mantida pelo menos até o primeiro mês de vida do bezerro. Posteriormente, conforme a condição corporral do bezerro e sua ingestão de ração, esta quantidade pode ser reduzida até o desmame.
Este tipo de desmame, considerado como gradual, auxilia o bezerro a aumentar a ingestão de ração durante o período de aleitamento estando mais bem preparado para enfrentar o desmame.
Além de todos estes pontos abordados, é muito importante que durante o aleitamento haja uma interação positiva trabalhador-bezerro. Estudos mostram a importância desta interação com reflexos postivos no desenvolvimento do animal (ganho de peso, menor ocorrência de doenças) e na obtenção de respostas comportamentais desejáveis, ou seja, animais manejados positivamente tornam-se mais dóceis e quando estes tem a presença sistemática desta interação positiva desde os primeiros dias de vida, permite a manutenção da docilidade até a vida adulta. Fator de grande relevância, pois é desejável ter animais mais fáceis de manejar durante a pesagem e ordenha, por exemplo.
Esta interação torna-se mais intensa quando ocorre junto ao aleitamento, pois o leite reforça positivamente esta interação, tornando-a mais intensa. Assim, uma vez ao dia, durante o aleitamento estabeleça uma boa interação com os bezerros, isto pode ser feito com a aplicação de escovação diária dos animais, assemelhando as lambidas da mãe enquanto ele mama. Realize a escovação preferencialmente no costado, inserção de cauda, períneo e virilha, com duração de pelo menos dois minutos por animal. Se há possibilidade, realize em todos os bezerros que estão em fase de aleitamento, caso contrário, faça em todos os bezerros até 30 dias de idade. Pois, de acordo com nossos estudos, este perído é caracterizado o de maior aprendizado dos bezerros (Magalhães Silva, 2012; Magalhães Silva, 2013). Lembrando que, quanto mais tempo se interage positivamente com o animal mais se aumenta a chance dele manter boas respostas comportamentais em longo prazo.
A interação positiva tratador-bezerro, além de estreitar os laços, propõe um manejo mais cuidadoso, com o tratador observando e avaliando os bezerros de forma individual. Por exemplo, quando sugerimos que o tratador escove ou acaricie os bezerros diariamente e de forma individual, além de propormos uma interação positiva, criamos a oportunidade para um contato mais íntimo, que facilita a identificação de problemas em uma fase inicial como, por exemplo, em relação a infestação de carrapatos, miíases, problemas com umbigo e princípio de casos como diarréia e pneumonia. Ou seja, se temos uma boa interação e tratadores capacitados para solucionar pequenos problemas como estes (pois conhecem sua biologia, nutrição e sanidade) seguramente teremos uma boa eficiência na criação.
Assim, com adoção de boas práticas de manejo é possível se obter melhorias nas condições de saúde e na facilidade de manejar os animais no futuro. Quando o trabalhador conhece o animal que está trabalhando ele tende a reconhecer mais facilmente suas necessidades e consegue supri-las com maior eficiência. De maneira geral, a implantação das boas práticas de manejo tem o objetivo de desenvolver o bem-estar na fazenda. Assim, sistemas que buscam melhorar os níveis de produção e ainda para àqueles que integram melhores práticas ambientais, elevado nível de biodiversidade e preservação de recursos naturais, como é o caso da Agricultura Biológica, esta adoção de boas práticas pode ser uma ferramenta útil e viável quanto à obtenção de animais mais saudáveis e com melhores condições de vida.


Referências bibliográficas
Da Silva, L. P.; Magalhães Silva, L. C.; Guimarães, M. F. M.; Paranhos da Costa, M. J. R. 2012. The implementation of good practices of handling on the raising of dairy calves and its implication in the handler’s work: a case study. In: 2° Encuentro Regional de Investigadores en Bienestar Animal, 2012, Montevideo, Uruguay. Disponível em: http://www.eventoba2012.com.uy/pdf/Congreso_BA/resumenes_para_posters/Pontes_da_Silva_et_al.pdf.
Guimarães M. F. M. A.; Magalhães Silva; Da Silva, L. P. ; Paranhos da Costa, M. J. R. 2013. Manejos aversivos aumentam a reatividade de bezerros leiteiros na presença do humano. In: XXXI Encontro Anual de Etologia, 2013, São Paulo, SP. Anais do XXXI Encontro Anual de Etologia – 2013.
Lensink, B. J. ; Boissy, A. ; Veissier, I. 2000.The relationship between farmers’attitude and behaviour towards calves, and productivity of a veal units. Ann. Zootech. vol 49, p.313-327.
Magalhães Silva, L. C. ; Madureira, A. P. ; Paranhos da Costa, M. J. R. 2007. Mais carinho no manejo de bezerros leiteiros: uma experiência bem sucedida. In: 44 Reunião Anhual da Sociedade Brasileira de Zootecnia, 2007, Jaboticabal. Anais da 44 Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Zootecnia.
Magalhães Silva, L. C.; Da Silva, L. P.; Guimarães, M. F. M.; Baldi, F.; Paranhos da Costa; M. J. R. 2012. Adopción de buenas prácticas de manejo para la promoción del bienestar de terneros de leche – salud. In: 2° Encuentro Regional de Investigadores en Bienestar Animal, 2Montevideo, Uruguay. Disponível em: http://www.eventoba2012.com.uy/pdf/Congreso_BA/resumenes_para_posters/Magalhaes_et_al.pdf.
Magalhães Silva, L. C. ; Guimarães, M. F. M. A. ; SILVA, L. P. ; Paranhos da Costa, M. J. R. 2013. Effects of rearing practices on the behaviour of dairy calves. In: ISAE 2013, 2013, Florianópolis, SC. Proceedings of the 47th Congress of International Society for Applied Ethology. The Netherlands: Wageningen Academic Publishers, v. 1. p. 124-124.


Data de publicação: 2014-07-06 15:40:29

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